junho 19, 2013

"Por um movimento antidisciplinar dos movimentos", por Murilo Corrêa

PICICA: " Quando Foucault dizia “não caia de amores pelo poder” significa, entre outras coisas, “não renuncie àquilo que um corpo pode”; “cuide de não desejar sua própria sujeição”, seu próprio aniquilamento ou domesticação. A liberdade só deixa de ser um conceito abstrato na medida em que se converte em revolta profunda e real."


Por um movimento antidisciplinar dos movimentos

19/06/2013
Por Murilo Corrêa


Por Murilo Corrêa, no Navalha de Dali
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1. A estratégia de soberania – porrada, porrada e mais porrada eufemisticamente “não-letal”, prisões arbitrárias e para averiguação – deu errado. Seu ideólogos, do Estadão à Globo, de Alckmin a Pondé, da Folha a Haddad, rapidamente voltaram atrás numa demonstração do potencial deslegitimador de um movimento que, em profundidade, coloca em que xeque o próprio sistema político representativo, e o faz de maneira acéfala e horizontal. Numa guerra de posições, isso é uma vitória dos movimentos e uma derrota significativa dos “arrependidos”.

2. Nos últimos dias, a mídia amenizou o discurso, mas isso não é uma vitória dos movimentos; é uma estratégia dos massmedia. Basta assistir ao GloboFuckingNews por alguns momentos para perceber o que está por baixo da espetacularização dos movimentos. Os analistas de primeira hora – que assistem tudo pela tevê – não cessam de fazer proliferar clivagens e classificações; isto é, tentar individualizar e segmentar os corpos das ruas: há os manifestantes pacíficos, ordeiros, de bem, contra a corrupção (geralmente anti-Dilma e anti-PT) e os demais; há os manifestantes de início de protesto, que levam cartazes e faixas, que são da paz, que vestem branco, limpinhos, ordeiros, cívicos e os demais – vândalos, sujos e – esta teoria paranoide surgiu no DF, por exemplo – “provavelmente pagos para desestabilizar governos com atos de vandalismo e depredação dos patrimônios privado” (claro, este sempre vem antes) “e público”. Há os nacionalistas, que se enrolam imbecilmente em bandeiras, cantam o hino e acham que só ontem “o Brasil acordou para dar um basta”; de outro lado, os anarquistas antinacionalistas, os punks psolistas que não respeitam nada nem ninguém é só querem ver grassar a violência gratuita e injustificável.

3. Essas tipificações infinitas e classificações morais são indiciárias de uma mudança concreta: alterou-se uma estratégia de violência baseada na soberania (porrada, repressão e espetáculo descontínuo de crueldade) para uma estratégica mais sutil de controle disciplinar (contínua e virtual), segundo a qual já não se torna mais necessário reprimir violentamente. Um pequeno e concreto exemplo de como tudo se passa – ao mesmo tempo, esse exemplo é o reflexo local de uma estratégia que, nas mídias, começa a circular globalmente. Ontem, no Rio, os que foram presos por atos de vandalismo o foram por policiais infiltrados no movimento. Ou seja, o Estado já não confronta: segue os fluxos, controla-os de perto e tenta axiomatizá-los; se não funciona, reprime quando eles estão na iminência de sair de controle. Eles “previnem a violência” virtual com violência efetiva.

É na virtualidade do gesto que esse controle se aplica; não precisa depredar, basta esboçar o ato de pichação; não precisa atear fogo a um carro, basta que se ateie fogo a um monte de lixo. O controle e a repressão passam a ser exercidos localmente e tem por efeito criar uma clivagem disciplinar global entre “os bons manifestantes” – os que “são da paz”, se enrolam na bandeira do Brasil e cantam o hino – e os vândalos, criminosos, truculentos sem respeito por nada que devem ser reprimidos, inclusive em nome da suposta segurança dos demais manifestantes pacíficos. Esse sistema é em tudo análogo àquele que permite repartir os presos em presos de bom e mau comportamento; alunos disciplinados ou indisciplinados; doentes mentais que tomam seus remédios ou não.

4. As televisões e jornais desdobram essas clivagens simbolicamente. Nas entrelinhas, dizem até como os manifestantes devem se vestir, como devem se portar, o que podem ou não fazer, ou dizer. O Batalhão de Choque espera ali próximo, mas invisível, já não os acompanha; por outro lado, há policiais militares que seguem os fluxos da multidão e reprimem os fluxos desorganizantes; os policiais de trânsito “fazem a segurança do movimento” – na verdade, ordenam que se vá mais ou menos rápido porque “já é hora de liberar a rua” – e isso ficou claro em Curitiba, tarefa dada a policiais à paisana.
         Junto com uma potência de desordem e contestação, surge um rígido código de ética e disciplina, mas ele não é auto-organizado e gerido pelos movimentos das ruas e sim pela violência sutil e insensível dos signos que vêm de fora. “Vista branco”, “faça protesto limpinho”, “faça protesto ordeiro”, “seja da paz”, “não provoque os policiais”, “não xingue a mãe do governador”, “não piche o palácio do governo”, “não beba antes, durante ou depois”, “cante o hino”, “peça isso”, “demande aquilo”. 

5. Como esse código disciplinar entra em um movimento? Pela via demasiadamente real do simbólico. Ontem à noite, no GloboFuckingNews, a jornalista Mariana Godoy defendia os manifestantes pacíficos afirmando que “estavam conscientes de que deveriam se manifestar pacificamente a fim de não deslegitimar o movimento”. Isso só mostra o grande medo, o grande terror que a multidão, que precisa ser contida ou disciplinada, inspira no poder. Ora, o que o mea culpa de Pondé, Jabor, Alckmin, Globo, Haddad e suas cáfilas jornalísticas e políticas provam é, justamente, que os movimentos se autolegitimam. Eles são o único e imanente critério de legitimidade, não o Estado, não a mídia, nem nenhuma forma crítica transcendental. Isso é pós-revolta, refechamento do aberto.

A mídia tenta, desesperadamente, se reapropriar da cisão que os protestos de quinta-feira (14.06) criaram: surgiu um fosso entre a opinião pública real, das ruas, e a opinião pública que as mídias tentam axiomatizar. Por que as mídias passaram a apoiar os movimentos? Porque as ruas criaram essa cisão, explodiram as margens de crítica social que as mídias não cessam de tentar controlar, e as redes sociais – que também são um instrumento de controle e vigilância – terminaram por instrumentalizar essa explosão em uma geração de jovens de 14 a 28 anos desacostumada a ver televisão ou a ler jornais. “A única forma de vencê-los é, então, juntando-se a eles; fazendo-os passar para o nosso lado, passando para o lado deles”, teriam pensado as mídias.
6. Eis toda a conversão das estratégias de soberania das primeiras semanas em estratégia disciplinar sutil e docilizadora – por essa razão, mais insidiosa e perigosa. O vocábulo revolta, repentinamente, saiu de circulação e se tornou “protesto” ou “manifestação”. O que está acontecendo nas ruas é, sem dúvida, uma acumulação primitiva de democracia, é impossível negar. E ela surge sobretudo sob a insígnia forte do direito à cidade e da reapropriação do espaço público; com as repressões, a pauta logo se altera para incluir, contra a soberania, a reapropriação do direito não à livre manifestação. Um sem número de pessoas, nas redes sociais, postou seus relatos de participação nos movimentos das ruas; muitos orgulhosos de seu próprio pacifismo e nacionalismo, de terem seguido o código de ética e disciplina que os poderes impuseram. Mistificação, engodo, estratégia de despotenciação e disciplina dos corpos indóceis e inúteis. Tentativa de conter a revolta profunda de todos os corpos, de obturar a emoção criadora e de obliterar as emergências de uma comunidade de eus profundos. A repressão torna-se desnecessária quando assimilada, introjetada nas almas e transformada em exercício de subjetividade, pelo qual nos distinguimos dos outros e nos erigimos acima deles. As mídias tentam forjar um simulacro de opinião pública e, para tanto, procuram funcionar como instância de exame disciplinar.

Hoje, quando as disciplinas parecem retomar sobre os corpos um controle tanto mais insidioso quanto eficaz, trata-se de, contra a disciplina, exercer o direito à revolta, o direito a liberar o poder que circula nos corpos, nas ruas e no espaço público do qual os movimentos já se reapropriaram. Na noite de ontem, por todo o Brasil, algumas manifestações entraram pela madrugada. Trata-se, agora, de ocupar, de tornar a revolta contínua: nada de horários, trajetos, rotas, código de conduta imposto como “etiqueta do manifestante de bem/da paz/cidadão brasileiro”. Como quisera Oswald de Andrade, apenas “roteiros… roteiros… roteiros… roteiros…”. Nenhum nacionalismo faz sentido porque nós somos, hoje, o efeito de acúmulo local de uma demanda global: basta de democracia representativa significa que desejamos mais! Queremos tudo. Conquistar o Estado é ainda muito pouco. Os manifestos de apoio às revoltas locais mundo afora são indiciárias dessa globalidade.

 7. Quando Foucault dizia “não caia de amores pelo poder” significa, entre outras coisas, “não renuncie àquilo que um corpo pode”; “cuide de não desejar sua própria sujeição”, seu próprio aniquilamento ou domesticação. A liberdade só deixa de ser um conceito abstrato na medida em que se converte em revolta profunda e real. Eis toda a barbárie, que Renato Janine Ribeiro crê denunciar – mas, curiosamente, são raros os momentos em que ele identifica essa barbárie do lado do Estado e da “autoridade”. Diz ele que “Quem for violento perde o apoio da sociedade”, como se os movimentos sociais fossem algo diferente da própria sociedade. O tira na cabeça de Janine também quer fazer o exame, quer fazer a sociedade transcender os enxameamentos constituintes da multidão nas ruas – gesto filosófico que, ao que tudo indica, dá direito a publicar no clipping do Ministério do Planejamento.

Seja como for, o momento é de cuidado político: identificar e rasurar, com a fina lima da prudência, esse código de ética e disciplina que impuseram à revolta profunda de todos corpos. Isso não se faz sem insurgência, sem se rebelar contra a própria possibilidade de ter nossos corpos indóceis e inúteis ainda uma vez docilizados e utilizados por quem quer que seja – o Estado ou o tira(no) na cabeça de Renato Janine Ribeiro. Eis o que causa o grande medo dos aparelhos de Estado: a mais profunda indisciplina. As lutas também se constituem, a partir de agora, por um movimento antidisciplinar que deve se tornar imanente aos próprios movimentos: jamais renunciar àquilo que podem os corpos. Cuidar de produzir continuamente sua insurreição e seu carnaval.

A economia afetiva nos protestos de rua, segundo Bruno Cava

PICICA: "Cantar o hino num ato pode parecer nacionalista e deslocado (a mim incomoda), mas pode ser, por outro lado, apenas uma tentativa de aderir a um ato político de resistência, por parte de quem não compartilha, nem quer compartilhar, da "cultura" da esquerda tradicional, e mesmo assim seja perpassado por uma condição de luta e exprima outras formas da "consciência", de um corpo rebelde diante de um cotidiano insuportável."
 
Foto: Marcelo Say - Epa
 
"Tenho notado vários companheiros caindo no jogo da grande imprensa. 99% do noticiário é dedicado às cenas de violência. O noticiário nivela a brutalidade da polícia contra os corpos com atos (sempre políticos) contra a propriedade, o urbanismo e a própria estética limpa da cidade. Divulga-se a polícia espancando, torturando, prendendo arbitrariamente, mas ao mesmo tempo se divulga que também houve baderna, saque e depredação, sugerindo um empate onde vence a conservação da ordem, sem nunca atentar para o fato que a violência contra a pessoa não é equivalente à "violência" contra as coisas, e que o conteúdo político de um protesto popular é diverso da máquina policial e criminalizante. Mas o problema não está só nos "fatos". 99% dos artigos e colunas de opinião estão voltadas a rotular os manifestantes. Uma espécie de sociologia de sofá que, sem nenhuma forma de pesquisa de campo, tipifica cada um segundo categorias preexistentes, na expectativa de colarem no senso comum e, por essa razão, ganharem realidade. Teríamos na rua o ativista bom e o ativista ruim, o politizado e o despolitizado, o violento e o pacífico, o patriota e o baderneiro, e assim por diante, uma multiplicação de dicotomias, de maneira que o cruzamento de todas elas converge no manifestante honesto e trabalhador, a figura ideal contra a corrupção e pela paz, a nação, a restauração da decência pública e o respeito à propriedade. Diante disso, alguns companheiros esboçam escândalo e correm em aderir à lógica da tipificação, orientando-se pelo bom manifestante conscientizado e respeitador, quer dizer, ele mesmo. É a versão à esquerda da classe média branca como fiel da balança da política, o padrão ouro da revolta, entre o fascismo sincero das elites e as massas alienadas e perigosas: os defensores do interesse geral. O que parecem esquecer é como num movimento existe uma força de transformação onde cada um sai diferente de como chegou. Basta um dia de mobilização como a que estamos vendo, para muita coisa mudar. As pessoas mudam, reorganizam-se os afetos, reorientam-se os discursos. As forças políticas se recompõem. É preciso entender essa constante reinvenção nas lutas, além das identidades. Cantar o hino num ato pode parecer nacionalista e deslocado (a mim incomoda), mas pode ser, por outro lado, apenas uma tentativa de aderir a um ato político de resistência, por parte de quem não compartilha, nem quer compartilhar, da "cultura" da esquerda tradicional, e mesmo assim seja perpassado por uma condição de luta e exprima outras formas da "consciência", de um corpo rebelde diante de um cotidiano insuportável. Da mesma maneira, é preciso ir mais fundo nas causas e consequências do que tem sido rapidamente tachado de vandalismo e baderna. Um levante é belo, mas ninguém disse que seria bonito de ver. Não se faz revolução apelando ao bom gosto. A própria ideia de beleza muda. O que preocupa é o embarque na estrutura narrativa do noticiário e das opiniões da grande imprensa, que há pelo menos 60 anos tenta pautar o dia a dia político do Brasil. Em termos de economia afetiva, da distribuição do medo e da alegria, essa estrutura é a maior sabotagem do que vem acontecendo. Se há agentes provocadores e espiões, não percamos a luta contra eles instalando a paranoia e as ressalvas assassinas. Tudo isso favorece não só a polícia e a criminalização, mas a internalização da ordem policial, bem como a desmobilização e a divisão identitária dos grupos. O horizonte disso já conhecemos: capturar a potência de um tumulto constituinte e jogá-lo no colo de um novo Cansei. Mais que simplesmente ouvir a "voz das ruas", é preciso criar novas narrativas e novas explicações, na medida em que se impõem pela própria premência do momento. A disputa está encarniçada e é pela própria história em movimento. Que seja uma história viva, nova, uma que nunca ouvimos e que podemos criar e que estamos criando. É a melhor forma de honrar a memória militante: expandindo-a. Continuemos atentos e fortes, sem vacilo."
 
Fonte: Bruno Cava

junho 18, 2013

"17 de Junho ou Notas do Outono Brasileiro", por Hugo Albuquerque

PICICA: "Em termos práticos, todo o jogo político-partidário de 2014 será rearranjado, o que não quer dizer que os partidos simplesmente deixarão a obsolescência, se renovarão ou serão substituídos por formas melhores. Mais o repeteco monótono de 2010 dificilmente acontecerá. O que não quer dizer que o alívio, ou o desabafo, de hoje será a salvação de amanhã" 

17 de Junho ou Notas do Outono Brasileiro

Largo da Batata -- São Paulo
Hoje, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, alguns jovens invadiram o Congresso Nacional em Brasília, depois de dias de manifestações contra o reajuste das tarifas nas capitais brasileiras, além do levante durante a Copa das Confederações. Grande parte dessas movimentações foram reprimidas duramente pelas polícias. O estopim parece ter sido a enorme violência que a polícia militar paulista usou contra manifestantes há poucos dias numa das manifestações contra o reajuste nas passagens -- depois de ter abusado em manifestações anteriores. 
Violência policial em alta escala não é novidade no Brasil, um país cuja democracia carrega até hoje o fardo de ter uma polícia militar com competência de atuação sobre a população civil, uma herança histórica de sua ditadura militar. Contra o que protestam os brasileiros? Contra e a favor de muita coisa. Coisas diferentes e até conflitantes entre si. Por exemplo, José Dirceu e Arnaldo Jabor estão, neste exato instante, apoiando as manifestações -- embora certamente por motivos muito diferentes e o segundo só depois de um mea culpa.

Além disso, há uma miríade de pautas e insatisfações diferentes que vieram à tona muito rapidamente e há, também, um efeito caleidoscópio geral -- seja porque se veja o que quer ou se quer fazer com que se veja o que desejamos nisso tudo. No entanto, existe um sentimento sincero, sublime e difuso que perpassa as pessoas. Há um incômodo, um verdadeiro nó na garganta, com o modo como as coisas são postas, ou como não são, neste exato momento. A era da inércia, da paralisação da redução da política encontrou seu limite. 

O problema aqui é o déficit afetivo no funcionamento da democracia brasileira atual, a insatisfação em relação à era dos políticos-executivos que vieram na esteira dos -- merecidamente ou não considerados -- campeões da "redemocratização" -- que jamais se concretizou e passou a funcionar à base de composições cada vez mais confusas, contraditórias e insuficientes. Uma série de gambiarras cujas faíscas são apagadas às custas dos extintores policiais, que apagam fogo com querosene. 

Há uma crise política e uma crise que não foi feita da catástrofe -- e aumento das passagens ou não investimento em áreas estratégicas é lateral -- mas do fortalecimento da multidão -- que come, que veste, que toma remédios --  acompanhada de um vazio simbólico cada vez maior. As coisas passaram a não fazer sentido e a incompreensão foi recompensada à base de cacetetes.  

Trata-se de um fenômeno parecido com o Maio de 68 europeu, não só por sua natureza de alastramento global, no qual os ganhos objetivos do bem-estar social, decorrentes de governos social-democratas e democratas-cristãos, vieram desacompanhados de um vazio espiritual que se tornou insuportável: no Brasil de 2013, vive-se melhor do que em 1993 ou em 2003, mas a dimensão subjetiva é reduzida ao dado estatístico -- assim como os fluxos não codificados precisam desesperadamente serem reduzidos a um regime qualquer, sistemicamente válido. Ainda assim, não havia meios tecnológicos em 68 suficientes para possibilitar uma efetiva disposição em rede do movimento.     

Desse modo, a disposição em rede, o rápido alastramento das chamas, a intensidade fugaz e, ao mesmo tempo, potente são características semelhantes tanto cá quanto na Primavera Árabe, nas revoltas estudantis chilenas ou nos occupy americanos e europeus -- em todos os casos, Maios de 68 2.0, cujas consequências culturais-políticas permanecem por muito tempo sem que impliquem na resolução de impasses: são movimentos sobreproblematizantes, que expõem tensões, trazem à tona o submerso, operam uma catarse social ímpar e atentam para o abismo monstruoso entre o velho e o novo, sem necessariamente resolverem seus impasses.

O tamanho da movimentação hoje aqui em São Paulo foi espetacular. Ainda mais por se tratar de uma cidade que mais até do que outras capitais, o espaço comum está erodido entre os carros e a especulação imobiliária. Sem dúvida alguma, a enorme tolerância e leniência da população paulistana esgotou-se quando as liberdades burguesas foram abaixo via ação policial. A polícia do Carandiru, do Pinheirinho e da Cracolândia não poderia ter mostrado a cara de verdade.

Em termos práticos, todo o jogo político-partidário de 2014 será rearranjado, o que não quer dizer que os partidos simplesmente deixarão a obsolescência, se renovarão ou serão substituídos por formas melhores. Mais o repeteco monótono de 2010 dificilmente acontecerá. O que não quer dizer que o alívio, ou o desabafo, de hoje será a salvação de amanhã. Hoje, o que fazer, no hoje de amanhã, como.  

Fonte: O Descurvo

"Análise: setores reacionários se reorganizam em outro front", por Ferrer

PICICA: "O libertário movimento deve deixar claro. O aumento de 20 centavos é sim a última gota. Mas nosso “copo” está cheio é de um modelo econômico que não democratiza as oportunidades, que não democratiza a terra, que não democratiza a educação, que não democratiza a sociedade. Deve deixar claro que o direito de ir e vir passa obrigatoriamente pela gratuidade do transporte coletivo e que este deve ser pago por aqueles que dele se beneficiam (ou seja, todo cidadão) e não pelos seus usuários. Somos contra a corrupção, mas não somos idiotas. A corrupção está entranhada em toda a sociedade. Não suportamos mais a corrupção policial, os “jeitinhos” para liberações de alvarás de grandes edifícios e shopping centers, não suportamos mais “um por fora” para acelerar processos na justiça, não suportamos mais concessões e privatizações que não trazem efetivo retorno para os mais pobres, não suportamos mais uma saúde e uma educação dirigida por um sistema que visa o lucro, não suportamos mais um modelo de eleições determinado pelo grande capital. O Brasil mudou e quer continuar mudando. Não queremos a volta da recessão, do desemprego, das privatizações escandalosas, da subserviência ao FMI e seu modelo de Estado Mínimo."

Análise: setores reacionários se reorganizam em outro front


Por Ferrer

As manifestações recentes apresentam um cenário, até certo ponto, inédito no Brasil. Se até um passado recente, o poder executivo era majoritariamente liderado pelos partidos de direita, hoje o poder está mais distribuído. O governo baiano, gaúcho e do distrito federal são petistas. O PSDB mantém os governos de Minas, São Paulo, Goiás, Paraná. Já o movediço PMDB dirige o Estado do Rio de Janeiro. Em todos esses estados tivemos manifestações. Em todos esses Estados tivemos uma dura repressão da polícia. O que fica claro é que nem os partidos de direita nem os de esquerda sabem lidar com protestos. Ainda mais quando esses protestos não são organizados e dirigidos por movimentos sociais, organizações sindicais devidamente estabelecidos e com lideranças conhecidas. A nova cara das manifestações caracteriza-se justamente na ausência de uma cara. É a horizontalidade de sua organização sua principal característica. Bom ou ruim essa é a realidade. E a ausência de compromissos com o poder, com o jogo partidário ou mesmo com as próximas eleições é um desafio completamente novo para nossa elite política. E é esse o tempero que mobiliza cada vez mais manifestante e o torna ainda mais magnífico, mais libertador e mais atraente.

São muitas as vozes descontentes no país. Afinal são muitos os motivos. Essa anarquia, entretanto, também traz seus riscos. Quando todos os descontentes saem às ruas e cada um de seus ativistas leva consigo a sua própria bandeira, o movimento corre sério risco de se perder.

Tenho visto na Internet as mais variadas manifestações. Até quinta-feira, parte considerável da mídia, muitos dos meus amigos reacionários e outros órfãos da TFP defendiam o fim daquilo que chamaram de baderna. Bradavam pelo direito de ir e vir e defendiam maior energia e intolerância das autoridades e seus aparatos policiais. Os editoriais da Folha e do Estadão foram a senha para que o Governador autorizasse a polícia a descer o cacete nos manifestantes.

O problema é que hoje a Internet, mais especificamente, as redes sociais permitiram que grande parte da população tivesse acesso ao outro lado da notícia. A violência desproporcional e sem precedentes da polícia foram escancaradas. A tal depredação do patrimônio público virou motivo de chacota depois que flagrou-se policiais quebrando a própria viatura e prendendo “terroristas” que portavam vinagre. Diante dos fatos, não há argumentos e os reacionários de plantão perderam a mais importante das batalhas. A batalha da comunicação. As imagens deram legitimidade à manifestação. O movimento ampliou sua capacidade de conquistar novos corações.
Mas os reacionários não estão derrotados ainda. Com sua força repressora desmoralizada, eles estão se reorganizando em outro front. Partiram agora para a dispersão das bandeiras. E alerto que esse é muito mais perigoso para o movimento. Navegando pelas redes sociais tenho visto diversos vídeos, textos, cartazes conclamando para a manifestação. Dizem que não se trata de 20 centavos, não se trata se quer de um transporte coletivo gratuito. A bandeira agora é dizer que o aumento é só a última gota. Defendem que os manifestantes, na realidade, não toleram mais “bolsa isso, bolsa aquilo”, são contra os mensaleiros, contra a política fiscal do governo, contra os “tentáculos do governo nas empresas estatais”, contra os impostos, contra a inflação, etc. Trata-se de um claro objetivo de capitalizar o movimento para as bandeiras da direita reacionária desse país.

O libertário movimento deve deixar claro. O aumento de 20 centavos é sim a última gota. Mas nosso “copo” está cheio é de um modelo econômico que não democratiza as oportunidades, que não democratiza a terra, que não democratiza a educação, que não democratiza a sociedade. Deve deixar claro que o direito de ir e vir passa obrigatoriamente pela gratuidade do transporte coletivo e que este deve ser pago por aqueles que dele se beneficiam (ou seja, todo cidadão) e não pelos seus usuários. Somos contra a corrupção, mas não somos idiotas. A corrupção está entranhada em toda a sociedade. Não suportamos mais a corrupção policial, os “jeitinhos” para liberações de alvarás de grandes edifícios e shopping centers, não suportamos mais “um por fora” para acelerar processos na justiça, não suportamos mais concessões e privatizações que não trazem efetivo retorno para os mais pobres, não suportamos mais uma saúde e uma educação dirigida por um sistema que visa o lucro, não suportamos mais um modelo de eleições determinado pelo grande capital. O Brasil mudou e quer continuar mudando. Não queremos a volta da recessão, do desemprego, das privatizações escandalosas, da subserviência ao FMI e seu modelo de Estado Mínimo.

Queremos um estado que nos dê oportunidade de vencer, uma polícia que nos proteja e uma sociedade que nos respeite. Somos todos brasileiros e tudo que queremos é caminharmos juntos para um futuro mais justo, mais livre e mais igual.

O maior patrimônio de um país é o direito de seus cidadãos gritarem por um país melhor. Esse patrimônio que queremos resgatar. Essa é a nossa bandeira.

“Paz sem voz, não é paz, é medo”

Fonte: Luis Nassif Online

"Os protestos - a voz do MPL" (Blog Bueno)

PICICA: "Na sua última edição, Veja contrariou sua linha editorial e se posicionou a favor das manifestações. Quando um veículo que representa o que há de mais reacionário na sociedade apoia movimentos sociais, há no mínimo um ponto de extrema relevância para refletir."
  
Os protestos - a voz do MPL 

Com causa

Copio texto do estudante Paulo Motoryn, militante do Movimento Passe Livre. O MPL não tem porta-vozes nem lideranças explícitas, por isso não tenho certeza se o Motoryn representa mesmo a opinião do grupo. Espero que sim.

Desde o ato da última quinta-feira contra o aumento da passagem do transporte público em São Paulo, em que a violência e a repressão policial viraram notícia em todo o planeta, mais uma ameaça ronda o sucesso das manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre: a instrumentalização do povo.

 A evidente mudança de postura da imprensa em relação aos protestos deve ser motivo de desconfiança, não de festa. Isso porque nos últimos dias, imperou o comentário: “Agora até a grande mídia defende as manifestações”. Como se isso fosse algo positivo.

Por um lado, a máxima “não é só pelos 20 centavos” conseguiu convencer diversos setores da população a ir às ruas, por outro, abriu uma questão polêmica: se o aumento da passagem foi só o estopim, o que mais nos incomoda? Quais são os reais motivos do fim da letargia política em São Paulo?

É fato, o reajuste do preço transporte só provocou a revolta necessária para que o paulistano percebesse o óbvio: política se faz nas ruas. No entanto, a recusa ao modelo de sociedade atual tem de ser deixada clara. Isso porque os perigos da apropriação do movimento são reais.

Na sua última edição, Veja contrariou sua linha editorial e se posicionou a favor das manifestações. Quando um veículo que representa o que há de mais reacionário na sociedade apoia movimentos sociais, há no mínimo um ponto de extrema relevância para refletir.

Mas as páginas de Veja só revelam a nova postura dos veículos da imprensa dominante: já que não podem mais controlar ou evitar a multidão, manipulam seus objetivos. De acordo com a revista, o descontentamento dos manifestantes se deve também à corrupção, à criminalidade… Falácia.

É evidente que essas questões também são importantes, mas os jovens que estão nas ruas estão preocupados com questões muito mais profundas. A juventude está mostrando que não quer compartilhar dos valores individualistas, consumistas e utilitaristas da geração de seus pais.

O grito dos jovens está longe de bradar contra os “mensaleiros”, contra a inflação, contra as políticas sociais de transferência de renda. O movimento é progressista por natureza e agora tem de saber lidar com uma ameaça feroz: a direitizacão.

O aparelho midiático que serve a esses interesses já foi acionado. A grande imprensa já está mobilizada para maquiar o movimento de acordo com um ideário conservador, por isso o povo precisa fazer seu recado ser entendido. Sob hipótese nenhuma podemos nos alinhar aos Datenas, Jabores e Pondés.

O que queremos é derrubar as barreiras entre ricos e pobres, quebrar os muros entre centro e periferia, consolidar o povo como um ator político de importância ímpar e lutar por um Brasil com justiça social, sem desigualdade e com oportunidades iguais para todos e todas. Nada mais. E nada menos.

 Vamos à luta! 


Fonte: Blog Bueno

OUTRAS PALAVRAS: Uma saída para o impasse em São Paulo; Crônica sobre a possível Primavera Brasileira; Como as empresas de ônibus maquiam custos



Boletim de Atualização - Nº 281 - 17/6/2013


ESPECIAL: DO PASSE LIVRE À CONSTRUÇÃO DAS LÓGICAS PÓS-CAPITALISTAS
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Largo da Batata - São Paulo, 17h15: o início de uma manifestação gigante 

OUTRAS PALAVRAS
Uma saída para o impasse em São Paulo
Há caminho político, avalizado pelo STF, para reverter reajuste transferindo custos a 1% mais favorecidos. Fernando Haddad estará à altura de tal ousadia? Por Antonio Martins


OUTRAS PALAVRAS
Crônica sobre a possível Primavera Brasileira
Algo une novos protestos aos Fóruns Sociais Mundiais: é a noção de que lutas podem colocar direitos acima do capital. Por Marília Moschkovich


Ex-analista de crédito de banco revela sinais de fraude contábil, uso de "laranjas" e formação de máfias por parte do cartel que controla transporte público. Por Fernando Souto, no blog do Nassif

BLOG

Atos de apoio espalham-se por 46 cidades, de quatro continentes. Em Berlim, brasileiros e turcos manifestam-se juntos. Por Gabriela Leite


"Nem todos aqueles policiais eram o governador. Talvez alguns ainda fossem seres humanos". Por Ronaldo Bressane, em seu site

OUTRAS MÍDIAS
"Protestos em São Paulo têm demonstrado que há um novo e velho agente político na cidade: a população", dizem líderes do movimento. Por Rafael Siqueira e Matheus Preis, do Movimento Passe Livre (MPL)


Vídeo sugere que tentativa de desmoralizar Passe Livre está indo por água abaixo, porque multidão o encarou de frente, com ajuda da internet

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CONTEXTO

Textos de nosso acervo para compreender em profundidade temas atuais

NOVAS LÓGICAS
Nossos sonhos não cabem no capitalismo”
Para Fernando Meirelles, reconstrução da política exige superar lógicas que associam felicidade e sucesso a consumo e acumulação sem fim. Fernando Meirelles, entrevistado por Inês Castilho(29/8/2012)

TEORIA
Das revoltas a uma nova política
Toni Negri e Michael Hardt oferecem reflexões para superar três pilares do capitalismo: propriedade, trabalho subordinado e representação (10/10/2011)


CENÁRIOS
Zizek: “nada está perdido”
Ao lançar livro no Brasil, filósofo sustenta que “comunismo volta sempre” e sobreviverá às ruínas do socialismo real. Entrevista por Benedetto Vecchi


DIREITO À CIDADE
São Paulo, metrópole de todos?
Ladislau Dowbor enxerga possível laboratório de nova governança, que supere limites da velha política e estabeleça planejamento radicalmente participativo (6/2/2013)


TRANSPORTE
O trem da História e o mito da falta de recursos
Brasil continua a adiar construção de malha ferroviária, porque não haveria condições para tanto. Todos os dados demonstram: é argumento falso. Por Celso Vicenzi (17/5/2013)

COPA DAS CONFEDERAÇÕES
Futebol: segurança ou controle social?
Mega-eventos revelam: elitização do esporte e restrições à manifestação dos torcedores são tentativa de impor metrópoles militarizadas. Por Irlan Simões (7/7/2012)

junho 17, 2013

"O que eu sei e o que não sei sobre as manifestações pelo passe livre", por Luiz Eduardo Soares

PICICA: "Contemplemos o objeto que nos interroga, tanto quanto o interrogamos: os eventos em que milhares ocupam as ruas de várias cidades brasileiras, protestando contra o aumento de tarifa do transporte coletivo. O que ousaria dizer que sei a seu respeito? O que não sei?, ou melhor, que boas perguntas posso formular para as quais não disponho de respostas?"

O que eu sei e o que não sei sobre as manifestações pelo passe livre


Luiz Eduardo Soares

Diante de um fenômeno que rompe a rotina e surpreende a expectativa de estabilidade, as reações individuais são as mais variadas. Entretanto, de um modo geral, o primeiro impulso é defensivo e visa a auto-conservação. Qualquer mudança nos ameaça porque traz consigo a fantasia de que nosso mundo pessoal tão precário e incerto está em risco e pode ruir a qualquer momento. Essa fantasia provém da radical insegurança que nos é constitutiva, seres mortais que somos. Não apenas a vida humana é frágil como aquilo que chamamos “realidade” é débil e movediço. Para sustentar-se, nossa “realidade” precisa dos outros, do olhar alheio, de seu reconhecimento, de sua confiança, da reiteração de manifestações de amor, amizade e respeito. A “realidade” depende das redes sociais que tecem afetos, valores, símbolos e ideias, tudo isso embrulhado em narrativas cotidianas verossímeis para o conjunto dos interlocutores.


Por isso, a ruptura do movimento contínuo e previsível da vida –que só é contínuo e previsível em nossa fabulação amedrontada, insegura e defensiva—suscita em nós respostas que negam ou exorcizam a mudança. Nesse sentido, há um complô conservador em cada um de nós –e entre nós– contra a mudança, ocorra ela em nós, nos outros ou na sociedade –como escrevi em um capítulo conhecido do Cabeça de Porco.

O que significam, nesse contexto, negar e exorcizar? Negar não significa recusar-se a admitir a existência de fatos, mas sua novidade, sua diferença. Exorcizar quer dizer livrar-se do embaraço que assusta e ameaça nossas crenças, nossa estabilidade, interior e exterior. Qual a melhor maneira de fazer ao mesmo tempo as duas coisas, negar e exorcizar? Explicando. Sobretudo, explicando com as categorias já conhecidas, disponíveis em nosso repertório de crenças e teorias. Quando eu explico um fenômeno novo, o teor de novidade deixa de perturbar meus esquemas cognitivos e valorativos, e as ideias que me ligam aos outros e àquilo que considero a realidade. Minha sanidade, a solidez de minhas verdades, principalmente a solidez de mim mesmo como sujeito, tudo isso salva-se com a explicação, quando, insisto, e apenas quando ela não coloca em dúvida seus próprios pressupostos ou métodos, seu próprio estoque de ideias prontas. O evento, em sua novidade, infiltra um excedente em nossa sensibilidade, em nossas ideias, em nossas emoções e percepções. Por outro lado, prestando um serviço a nosso aparato de autodefesa, a explicação domestica a diferença, circunscreve seu potencial subversivo e sua força questionadora. Meu argumento é simples: se um evento coloca um problema para meus esquemas mentais e práticos, deixa de fazê-lo quando estes últimos demonstram a capacidade de descrevê-lo (e integrá-lo) sem que haja resíduos, sem que seja necessária a invenção de novas estratégias descritivas e práticas, novas categorias e procedimentos. Na verdade, em vez de conhecimento, estaria em jogo apenas a confirmação de meu repertório prático, moral, ideológico e cognitivo.

Estas reflexões não pretendem ser o elogio à ignorância ou a crítica obscurantista ao conhecimento. Pelo contrário, visam distinguir a tarefa do conhecimento do comodismo classificatório reassegurador, que nos impede de olhar com os olhos de ver, de escutar para ouvir, projetando menos o que já sabemos ou supomos fazer, e nos abrindo à positividade desafiadora do evento em sua contingência: ação, protagonismos reconfigurando arenas e relações. O ponto a destacar é o seguinte: explicações que funcionam como meras consagrações do que já se sabe –ou se supõe saber—não produzem conhecimento. Se o propósito é conhecer, devemos buscar a compreensão autorreflexiva, a desnaturalização das imagens já constituídas e das descrições correntes. Até porque, nesse campo, todo esforço de entendimento, toda interpretação é também intervenção, é também ação social, uma vez que os intérpretes participamos da atribuição de significado aos fatos. Portanto, a atitude amiga do conhecimento deve exercitar os limites do saber e, onde há limites, há pelo menos dois espaços, ou seja, para abordar o que ignoro, devo afirmar o que sei, ou julgo saber.

Contemplemos o objeto que nos interroga, tanto quanto o interrogamos: os eventos em que milhares ocupam as ruas de várias cidades brasileiras, protestando contra o aumento de tarifa do transporte coletivo. O que ousaria dizer que sei a seu respeito? O que não sei?, ou melhor, que boas perguntas posso formular para as quais não disponho de respostas?

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"Manifestação e barbárie – A luta é por nossos direitos" (texto coletivo do grupo Blogueiras Feministas)

PICICA: "Me emocionei em ver a enorme força que o movimento tem e como essa força é contagiosa. As pessoas tomaram as ruas e não se intimidaram – e por que deveriam? as ruas são nossas – mesmo diante das injustiças e agressões. E para rua voltaram pelos nossos direitos e elas voltarão novamente e vai ser ainda maior. E quando digo ou ouço essa frase me encho de orgulho e emoção. Não nos calaremos." 


Manifestação e barbárie – A luta é por nossos direitos

Texto coletivo do grupo Blogueiras Feministas e com relatos de quem participou da manifestação na quinta feira 13/06.

Assisti tudo via Facebook. Moro no Canadá. Consternada eu vi os vídeos postados das pessoas que estiveram lá. Vi relatos de conhecidas minhas Blogueiras Feministas que estavam no meio da manifestação encurraladas na emboscada das forças policiais. Fiquei com o coração pequeno desesperada por notícias dessas pessoas que são próximas pelo convívio diário mesmo que nosso seja um convívio exclusivamente virtual, não diminui nosso bem querer e nossa preocupação.

Comecei então a postar toda informação que tinha acesso no meu perfil do facebook e na página das Blogueiras Feministas onde ajudo na administração e moderação. Chorei várias vezes não só diante da barbárie da força policial mostrada em diversos vídeos. Mas também em sentir a vibração positiva dos gritos de guerra da multidão, ao ver o manifestante dançando ao som de Bee gees, vendo as manifestações de apoio que aconteceram em diversas capitais do país ou escutando o sucesso musical da revolta da Salada. Vinagre.

Me emocionei em ver a enorme força que o movimento tem e como essa força é contagiosa. As pessoas tomaram as ruas e não se intimidaram – e por que deveriam? as ruas são nossas – mesmo diante das injustiças e agressões. E para rua voltaram pelos nossos direitos e elas voltarão novamente e vai ser ainda maior. E quando digo ou ouço essa frase me encho de orgulho e emoção. Não nos calaremos.

Domingo tem manifestação de apoio em várias cidades da Europa, dos EUA e do Canadá, inclusive na cidade onde eu moro. Vendo tantos brasileirxs pela ruas do país e do mundo inteiro exigindo  e protestando por seus direitos me enche de orgulho e de esperança que a primavera do Brasil vai acontecer nesse inverno.

Relato 01:

Todo mundo já comentou, mas vou falar também. Porque é pra isso que estive lá. Pra testemunhar. As fotos, vídeos, depoimentos que vi antes deram uma ideia, mas não me prepararam para o que eu vi. Uma multidão de gente, cantando pacífica, encurralada pela polícia. Bombas de gás atiradas a torto e a direito. As manifestações em São Paulo (e que começaram a se espalhar  por outras cidades do país) começaram por causa do aumento de R$ 0,20 na tarifa de ônibus, mas se tornaram algo mais: um protesto pela liberdade. 
  Pelo direito, garantido em constituição, de protestar. Uma manifestação pela cidade que a gente quer, sim, mas também pelo direito de lutar por ela.

Em São Paulo, o protesto estava marcado para Às 17h, no Teatro Municipal, na região do centro. Por volta de 17h40, eu e uma amiga chegamos lá e encontramos a multidão. Era muita gente. Demos um tempo, enquanto a passeata saía, para sentir o clima. A multidão não acabava, não dava pra saber onde era o começo, onde era o fim, tanta gente que era. Por fim entramos no meio. As pessoas cantavam e gritavam palavras de ordem (“ei, motorista, ei, cobrador, me diz aí se seu salário aumentou!”). Uma turma  tocava bateria e tambores, dava o ritmo da caminhada. Dos prédios, as pessoas manifestavam apoio. Tudo pacífico. De “vandalismo”, vi apenas uma pessoa pichando uma agência do Itaú, e ela foi repreendida por outros participantes. Nada mais. Nenhuma depredação mais séria, nenhuma violência. Assim a coisa foi indo, até que começou a confusão.

Por trás da gente, uma galera começou a correr, enquanto alguns gritavam “não corre que é pior”. Consegui entrar numa rua à direita, que descobri ser a Dr. Cesário Mota Junior. Me afastei um pouco pra tentar entender o porquê de as pessoas estarem correndo. Aí eu vi: oito policiais com capacetes, escudos e cacetetes em cima de um jovem, que tinha uma camiseta  enrolada em volta do rosto, como muitos dos manifestantes. Os caras estavam descendo o cacetete no moleque. Antes que eu olhasse muito, porém, estourou a primeira bomba. Alta, muito alta. Eu tinha me preparado para a ardência nos olhos, mas não para o barulho. Nessa hora, o grito mudou: “sem violência! sem violência!”. As pessoas pediam calma. Mas as bombas não pararam.

Então um amigo me reencontrou e me puxou pra longe dali. Tentamos dar a volta no quarteirão para reencontrar nossa amiga, mas não conseguimos: o choque bloqueou a rua. E assim começou nossa caminhada. Andamos e andamos pelo centro, tentando reencontrar a multidão, mas não conseguimos. A cada  rua em que tentávamos entrar, dávamos de frente com um paredão de policiais e com a fumaça branca das bombas. Acima da gente, contei cinco helicópteros. Andamos pra lá e pra cá, feito gato e rato, correndo do gás. A cada rua, víamos grupos de manifestantes. Parei numa churrascaria para ir ao banheiro: no sofá, uma menina desmaiada.

Andamos e andamos, passamos pela 9 de julho, pela praça 14 bis. Tentamos chegar à Paulista, mas os relatos eram de que a polícia tinha fechado todos os acessos. Demos várias voltas e conseguimos chegar. Da rua em que chegamos, conseguimos ver o Masp, de longe. Resolvemos ir para o lado da Consolação. Depois de alguns quarteirões, avistamos a fumaça branca, agora nossa velha conhecida. Os olhos começaram a arder e corremos para uma rua  transversal. Duas garotas nos ofereceram um pano embebido em vinagre, a perigosa substância apreendida pela polícia mais cedo. Demos mais umas voltas, vimos um tanque de guerra do Choque passando pela Paulista, fechada pela polícia dos dois lados. Vimos – e ouvimos – mais bombas, mais gente dispersa. Nossa amiga nos liga e diz que está no apartamento de um colega; rumamos pra lá. Da janela continuamos a ouvir os gritos das pessoas, os  helicópteros, as bombas.

Eu confesso: fiquei com medo em vários momentos. A cada policial que eu via, de moto, nas viaturas da Rota ou nos gigantescos tanques do Choque, sentia um frio gelado na espinha. Nada do que eu li tinha me preparado pra isso. Apesar disso – ou por isso mesmo – devo ir na próxima: é preciso ver, com os próprios olhos, o que está acontecendo. 

Relato 02:

Sobre o último ato, sobre flores e a violência

Ontem, quando ainda estava na concentração do ato, ganhei um raminho de flores amarelas. O clima estava tenso, mas quando vi jovens, homens, mulheres, velhos e crianças ali, pensei: “Hoje partiremos para um tudo ou nada”. O ato seguiu pacífico o trajeto todo até chegarmos à Consolação. Na Praça Roosevelt, ao subir a escadaria, tive a noção da quantidade de gente que estava ali, éramos muitos. Foi ali também que a polícia, sem motivo  algum, nos reprimiu com violência. Ela cercou a praça e os manifestantes se prensavam contra a parede para tentar fugir do efeito do gás lacrimogêneo. Neste exato momento, espremida entre pessoas tão assustadas quanto eu, o ramo de flor foi massacrado. Percebi ali que, conduzidos pela polícia, os rumos seriam extremamente violentos dali pra frente. Um grupo grande foi  subindo a Augusta, logo fomos cercados e atacado novamente pelo Choque, recuamos pela Bela Cintra, fomos encurralados várias vezes até que chegamos à Consolação. Lá, a cavalaria já esperava os manifestantes. Eles deixaram todo o grupo entrar na Consolação sem mover um dedo, ou atirar uma bomba. Logo, outro grupo surgiu na Consolação. O encontro desses dois grupos foi um dos momentos mais bonitos que vivi. Tivemos uns três minutos de alegria e euforia. Quem estava ali já era sobrevivente das repressões anteriores, então quando nos encontramos nos sentimos fortes de novo. Estávamos juntos e unidos. Infelizmente, tudo fazia parte de uma tática da força policial para encurralar todos os grupos juntos. Tínhamos a cavalaria atrás, que agora avançava em nossa direção, o Choque vinha pela frente e pelas duas ruas de saída. Eles nos encurralaram. Em coro, começamos a pedir “Sem violência” e mesmo assim eles começaram a atirar com balas de borracha e jogar bombas. Minha amiga quase desmaiou. Eu quase desmaiei. Tentamos ficar todos juntos, mas teve um momento que abri os olhos e só vi fumaça. Senti muito medo por mim e pela galera que estava ali. Não tínhamos para onde fugir. Eles sabiam disso. Eles não buscavam mais a nossa dispersão, mas sim apenas demostrar força. Para passar por eles, os manifestantes tinham que erguer às mãos, em ato de rendição, caso contrário, mandavam bala. Corri com o meu grupo com as mãos para o alto, estávamos rendidos perante uma tropa de choque que atirava à queima roupa. Me senti covardemente agredida  e humilhada. Horas depois, já em local seguro, me senti um pouco idiota por carregar a flor. Parece que essas sutilezas não cabem mais diante de tanta agressividade. Sempre soube que estava lidando com uma polícia que impõe à política de segurança pública, uma lógica militar, truculenta e extremamente violenta. Sei também que simbolicamente as flores carregadas por mim e por outros manifestantes, demonstram que estamos do lado oposto  ao da PM: nossa força vem da união do povo e queremos mudanças por vias democráticas e pacíficas. Mas não podemos mais ser massacrados como ocorreu ontem. Não vamos recuar! Segunda-feira vai ser maior…” 

vinagre
Vinagre. Cebion. Óculos de natação.
Itens indispensáveis para manifestações

Vamos para rua! 

Dicas pra todos os gostos avinagrados
vou pra manifestação!

[1] vista teu melhor sorriso e roupas confortáveis. traga flores no coração e, se quiser, até nas mãos. distribua olhares cúmplices, acene. uma maçã na bolsa vai bem na hora da fome – isso se a polícia não entender como projétil de alta periculosidade, claro.

[2] combine com os amigos antes um ponto de encontro. tb aproveite pra fazer amigos, converse, troque ideia, manifestar-se é um ato de sociabilidade.

[3] manter a calma é fundamental. tenta gritar o “seguuura” na hora em que precisar, deixe o “sem violência! sem violência” engatilhado na garganta. procure não se dispersar, ofereça ajuda, vamos cuidar uns dos outros.

[4] e assim que o perrengue passar, gaste o bom humor. não é isso a cara do brasileiro? então, vamos usar a nosso favor!

[5] pense nas imagens, vídeos e mensagens no twitter que irá produzir. fotos de pessoas correndo ou tremidas podem colaborar com a “narrativa do medo”. prefira um conteúdo que confirme as tuas certezas e teus direitos.

[6] lembra: estar na rua é uma das coisas mais bonitas que vc pode fazer neste dia.

tenho medo, mas queria ajudar

[1] normal. ou vc acha que ninguém tem medo?

[2] vc pode participar “um pouquinho” – recebendo os manifestantes com flores, com panfletos e depois sair fora, ué. vc tb pode auxiliar nos postos de apoio médico e outros. fuce o facebook que encontrará quem os organiza. e leia as dicas abaixo.

não irei à manifestação

[1] se conhece quem resida na área da manifestação, auxilie! peça pra deixarem vinagre na porta de casa, por exemplo. os tempos são esses: uma garrafa de vinagre, uma declaração de amor.

[2] explore teus talentos! sabe alguma língua estrangeira? ajude nas
coberturas independentes. sabe química? puxa, tem muito o que fazer. engenharia? e assim vamos.


[3] ajude a construir uma narrativa em que fique claro que são pessoas nas ruas. exercendo um direito. uma narrativa que lembre os motivos originários.

[4] todxs são fundamentais. vem.

Mais dicas para quem vai amanhã

Fonte: Blogueiras Feministas

"Sobre o que dizem as ruas", por Vinicius Wu

PICICA: "[...] cumpre registrar que seria recomendável aos dirigentes políticos do campo progressista afastar o risco de reproduzir aqui os erros da esquerda espanhola que, inicialmente, criminalizou o 15-M e terminou falando sozinha nas últimas eleições. Também seria recomendável não outorgar, de forma alguma, às elites brasileiras uma capacidade de mobilização que ela não possui e jamais possuirá. Refutar a ideia de que os jovens estão nas ruas em função da mídia ou de qualquer tipo de conspiração das "elites" é o primeiro passo para não cair em um erro elementar que seria bloquear qualquer possibilidade de dialogo com esses novos movimentos.

Melhor acreditar que é possível extrair do atual momento elementos para a renovação da agenda da esquerda brasileira e reforçar os laços que unem os governos progressistas da América Latina a todas as lutas contra as diversas formas de privatização da vida. É hora de reforçarmos nossa capacidade de dialogo, de escuta, e ouvir a voz nada rouca das ruas – a mesma que nossos adversários sempre buscaram silenciar. Estamos diante de uma oportunidade singular para renovarmos nossos discursos e nossas práticas, projetando o próximo passo da Revolução Democrática no Brasil com base na força sempre renovadora das mobilizações da juventude."



Sobre o que dizem as ruas

Seria recomendável aos dirigentes políticos do campo progressista afastar o risco de reproduzir aqui os erros da esquerda espanhola que, inicialmente, criminalizou o 15-M e terminou falando sozinha nas últimas eleições. Também seria recomendável não outorgar, de forma alguma, às elites brasileiras uma capacidade de mobilização que ela não possui. Refutar a ideia de que os jovens estão nas ruas em função da mídia ou de qualquer tipo de conspiração das "elites" é o primeiro passo para não cair em um erro elementar. Por Vinicius Wu.



A forma menos adequada de buscarmos a compreensão de um fenômeno social complexo é a simplificação. Não encontraremos uma única motivação para os recentes protestos que se espalharam pelas principais cidades do país, se o procurarmos. Temos questões mais gerais e universais ao lado de outros muitos temas locais e setoriais. Há aspectos que aproximam os manifestantes de São Paulo aos do Rio e de Porto alegre e, outros tantos, que os distanciam.

O papel da internet e das redes sociais é central e, em geral, os políticos e formadores de opinião não o tem compreendido minimamente. Buscar algum grau de compreensão do atual fenômeno, a partir do ponto de vista de uma esquerda que se coloca diante do dificílimo desafio de governar transformando, é o objetivo desse breve artigo.

O que se pode dizer preliminarmente é que estamos diante de uma expressão política do novo Brasil. A revolução democrática, levada a termo pelos governos Lula, redefiniu a estrutura de classes da sociedade brasileira, incluiu milhões de brasileiros à sociedade de consumo e possibilitou a emergência de novas expressões culturais e políticas. Mas o inédito processo de inclusão social e econômica ainda é imperfeito, inconcluso e contraditório. As dinâmicas políticas decorrentes do processo massivo de inclusão social em curso ainda são imprevisíveis, mas algumas pistas são visíveis e exigem da esquerda brasileira uma reflexão mais adensada.

As conquistas sociais dos últimos anos vieram acompanhadas da despolitização da política, de uma onda conservadora que constrange o Congresso Nacional e paralisa os partidos de esquerda, distanciando, ainda mais, a juventude da política tradicional. Lembremos que, recentemente, tivemos manifestações espontâneas, em todo o país, contra a indicação de Marcos Feliciano à Comissão de Direitos Humanos do Congresso Nacional. Na oportunidade, nenhum manifestante propunha o fechamento do Congresso ou a criminalização dos políticos. E o que fez nosso Parlamento enquanto Instituição? Nada. Esperou solenemente o movimento se dispersar. Frente à onda conservadora que estimula a homofobia, o racismo e a violência sexista, o que têm feito os partidos políticos? Os ruralistas de sempre se organizam no Congresso Nacional para anular os direitos dos indígenas e o que dizem nossos parlamentares progressistas?

Os dez anos de governo de esquerda no país nos deixam um legado de grandes conquistas, entretanto, há incerteza e imprecisão quanto aos próximos passos. Demandas históricas não atendidas carecem de respostas mais amplas. Além disso, novas questões sempre se impõem num cenário de conquistas sociais e políticas. Pois, se é verdade que os governos do PT incluíram milhões e possibilitaram acesso a inúmeros serviços antes inacessíveis, também é verdade que temos, em diversas áreas, serviços de baixa qualidade e, fundamentalmente, caros.

O transporte nas grandes cidades é um drama cotidiano para milhões de brasileiros. Temos pleno emprego em diversas regiões metropolitanas do país e, no entanto, ainda temos um oceano de precariedade e informalidade. E aqueles que ingressaram na sociedade de consumo nos últimos anos, legitimamente, querem mais: anseiam por cultura, lazer, mais e melhores serviços, educação de qualidade, saúde, segurança e transportes. São os efeitos colaterais de toda experiência exitosa de redução das desigualdades sociais e econômicas.

Evidentemente, há ainda o afastamento e o desencantamento com a política e os políticos. A denominada "crise da representação" não é um conceito acadêmico abstrato. O déficit de democracia e de legitimidade das Instituições políticas colocam em xeque a capacidade dos atuais representantes em absorver e compreender as novas dinâmicas sociais e políticas que se expressam nas ruas do país. Nossa jovem democracia corre o risco de caducar precocemente, caso não tenhamos êxito em ressignificá-la e reaproximá-la dos setores sociais mais dinâmicos.

Essas seriam algumas das questões mais gerais que aproximam os movimentos do Sul, sudeste e nordeste. Mas há ainda temas locais que incidem sobre dinâmicas especificas e mobilizam pessoas a partir de questões mais sensíveis a partir de sua vivência concreta nos territórios.

O Rio de Janeiro, por exemplo, se tornou uma das cidades mais caras do mundo. Há uma reorganização em grande escala do espaço urbano e há setores sociais que se sentem completamente alheios (e marginalizados) ao processo de "modernização" da cidade. Em São Paulo, temos uma polícia orientada para o uso desmedido e desproporcional da força e da violência – e isso não diz respeito somente aos dias de protestos. Também há ali um tipo de violência estrutural contra homossexuais e mulheres sem que o Poder Público organize qualquer resposta mais contundente. Poderíamos estender a lista.

Por fim, cumpre registrar que seria recomendável aos dirigentes políticos do campo progressista afastar o risco de reproduzir aqui os erros da esquerda espanhola que, inicialmente, criminalizou o 15-M e terminou falando sozinha nas últimas eleições. Também seria recomendável não outorgar, de forma alguma, às elites brasileiras uma capacidade de mobilização que ela não possui e jamais possuirá. Refutar a ideia de que os jovens estão nas ruas em função da mídia ou de qualquer tipo de conspiração das "elites" é o primeiro passo para não cair em um erro elementar que seria bloquear qualquer possibilidade de dialogo com esses novos movimentos.

Melhor acreditar que é possível extrair do atual momento elementos para a renovação da agenda da esquerda brasileira e reforçar os laços que unem os governos progressistas da América Latina a todas as lutas contra as diversas formas de privatização da vida. É hora de reforçarmos nossa capacidade de dialogo, de escuta, e ouvir a voz nada rouca das ruas – a mesma que nossos adversários sempre buscaram silenciar. Estamos diante de uma oportunidade singular para renovarmos nossos discursos e nossas práticas, projetando o próximo passo da Revolução Democrática no Brasil com base na força sempre renovadora das mobilizações da juventude.

(*) Secretário-geral do governo do Estado do Rio Grande do Sul

Fonte: Carta Maior